sábado, 23 de novembro de 2013

Apresentação de Personagem.

   O demônio adentrou na igreja e o ser celeste foi atrás.
   A porta rangeu ao ser empurrada lentamente pelo anjo em forma humana que segurava seu revólver de prontidão em sua mão direita esperando pra cuspir seus projéteis. Dentro da igreja os bancos se estendiam por toda a distância até a estátua de um Jesus crucificado com os olhos pesarosos voltados para o chão, mas não havia sinal da criatura.
   “Você viu para onde a coisa foi?” O anjo indagou em silencio para a figura inerte. “Acho que não.”
   Adentrou na igreja, não mais que três passos, fora algumas velas tremulas perto do altar do bom homem na cruz a penumbra prevalecia. Um barulho ao seu lado o fez se virar rapidamente para encarar o vazio.
   “Parece que meus sentidos estão meio enferrujados.”
   Andou mais uns dois metros quando ouviu um novo barulho, dessa vez um rangido veio do andar acima de sua cabeça. Rapidamente o anjo correu pelas escadas a tempo de ver uma porta se fechar ao fim do corredor.
   Andou lenta e cautelosamente até a porta.
   - Mostre-se demônio! – A criatura celeste gritou perante a porta por onde o monstro havia passado. “Um, dois, três’. Chutou a porta na altura da maçaneta e entrou no cômodo escuro procurando por um alvo pra fazer um buraco.
   A sala estava vazia. Pelo menos foi o que pareceu no primeiro instante.
   De algum lugar elevado a criatura saltou sobre o anjo, fechando a mandíbula em seu antebraço esquerdo, atravessando facilmente a pele tatuada e a carne, quase chegando ao osso, se no último instante o disparo não houvesse sido feito na cabeça do monstro, o anjo estaria com um braço a menos agora. O demônio se contorceu para longe respingando sangue preto e pegajoso. O tiro havia destruído metade da cabeça canina da coisa, mas isso não a fez recuar.
   O anjo agora podia ver com mais clareza a figura a sua frente, era como um cão gigante e totalmente sem pele, como se houvesse sido esfolado. Pela mandíbula cerrada escorria saliva misturada com espuma e o olho que havia sobrado estava fixo no seu caçador. A criatura preparou o bote e se jogou pra cima do anjo, que rapidamente se desviou do e com mais dois movimentos rápidos dos dedos abriu novos buracos ao dorso do demônio, o calibre .44 com munição embebida em agua benta fez um estrago considerável na coisa que agora cambaleava de um lado para o outro sujando tudo com seu sangue negro. Com um ganido de dor o monstro se jogou sobre o anjo uma última vez. Mais quatro disparos contra o peito da criatura e havia acabado. O monstro caiu aos seus pés, inerte, sujando as suas botas.
   - Vou ter que jogar essa bosta fora. – Referiu-se aos seus calçados. Guardou o revolver no coldre embaixo do braço esquerdo e tirou um maço do bolço.
   Com a arma guardada e o cigarro na boca, pegou a carcaça da criatura e jogou por cima de um dos ombros, a coisa devia pesar uns duzentos quilos. Desceu pelas escadas deixando um rastro de sangue negro e saiu pela porta da frente sem se preocupar, como alguém que acabou de se confessar.

   “Vou dar um fim nesse desgraçado e ir tomar uma cerveja.” – Era o que o anjo queria pelo resto da noite.

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