O demônio adentrou
na igreja e o ser celeste foi atrás.
A porta rangeu ao
ser empurrada lentamente pelo anjo em forma humana que segurava seu revólver de
prontidão em sua mão direita esperando pra cuspir seus projéteis. Dentro da
igreja os bancos se estendiam por toda a distância até a estátua de um Jesus crucificado
com os olhos pesarosos voltados para o chão, mas não havia sinal da criatura.
“Você viu para onde
a coisa foi?” O anjo indagou em silencio para a figura inerte. “Acho que não.”
Adentrou na igreja,
não mais que três passos, fora algumas velas tremulas perto do altar do bom
homem na cruz a penumbra prevalecia. Um barulho ao seu lado o fez se virar
rapidamente para encarar o vazio.
“Parece que meus
sentidos estão meio enferrujados.”
Andou mais uns dois
metros quando ouviu um novo barulho, dessa vez um rangido veio do andar acima
de sua cabeça. Rapidamente o anjo correu pelas escadas a tempo de ver uma porta
se fechar ao fim do corredor.
Andou lenta e
cautelosamente até a porta.
- Mostre-se
demônio! – A criatura celeste gritou perante a porta por onde o monstro havia
passado. “Um, dois, três’. Chutou a porta na altura da maçaneta e entrou no
cômodo escuro procurando por um alvo pra fazer um buraco.
A sala estava
vazia. Pelo menos foi o que pareceu no primeiro instante.
De algum lugar elevado
a criatura saltou sobre o anjo, fechando a mandíbula em seu antebraço esquerdo,
atravessando facilmente a pele tatuada e a carne, quase chegando ao osso, se no
último instante o disparo não houvesse sido feito na cabeça do monstro, o anjo
estaria com um braço a menos agora. O demônio se contorceu para longe
respingando sangue preto e pegajoso. O tiro havia destruído metade da cabeça
canina da coisa, mas isso não a fez recuar.
O anjo agora podia
ver com mais clareza a figura a sua frente, era como um cão gigante e totalmente
sem pele, como se houvesse sido esfolado. Pela mandíbula cerrada escorria
saliva misturada com espuma e o olho que havia sobrado estava fixo no seu
caçador. A criatura preparou o bote e se jogou pra cima do anjo, que
rapidamente se desviou do e com mais dois movimentos rápidos dos dedos abriu
novos buracos ao dorso do demônio, o calibre .44 com munição embebida em agua
benta fez um estrago considerável na coisa que agora cambaleava de um lado para
o outro sujando tudo com seu sangue negro. Com um ganido de dor o monstro se
jogou sobre o anjo uma última vez. Mais quatro disparos contra o peito da
criatura e havia acabado. O monstro caiu aos seus pés, inerte, sujando as suas botas.
- Vou ter que jogar
essa bosta fora. – Referiu-se aos seus calçados. Guardou o revolver no coldre
embaixo do braço esquerdo e tirou um maço do bolço.
Com a arma guardada
e o cigarro na boca, pegou a carcaça da criatura e jogou por cima de um dos
ombros, a coisa devia pesar uns duzentos quilos. Desceu pelas escadas deixando
um rastro de sangue negro e saiu pela porta da frente sem se preocupar, como
alguém que acabou de se confessar.
“Vou dar um fim
nesse desgraçado e ir tomar uma cerveja.” – Era o que o anjo queria pelo resto
da noite.